A solução

POCHONIA

O fungo Pochonia chlamydosporia foi relatado pela primeira vez como parasita de nematóides em 1974, após ter sido isolado de ovos de Heterodera schachtii Schmidt (Willcox & Tribe, 1974). Posteriormente, esse fungo foi isolado de ovos de Heterodera avenae Wollenweber (Kerry, 1975). Mais tarde, esse agente de biocontrole foi considerado o principal responsável pelo declínio da população de H. avenae em cultivares suscetíveis de cereais, num sistema de monocultivo (Kerry et al., 1982).

imagem 1Pochonia chlamydosporia também foi relatado por Morgan-Jones et al. (1981) e Godoy et al. (1983) como parasita de ovos e fêmeas de Meloidogyne arenaria (Neal) Chitwood, no Alabama, em campos de monocultivo de amendoim, e de várias outras espécies desse gênero de nematóide (Freire & Bridge, 1985; Ribeiro & Campos 1993; Hidalgo-Diaz et al., 2000; Sun et al., 2006). Nas últimas décadas, esse antagonista tem sido muito estudado como agente de biocontrole do nematóide das galhas Meloidogyne spp., e sua efetividade já foi comprovada em vários estudos (De Leij & Kerry, 1991; De Leij Et al., 1993, Campos & Campos, 1997; D’angieri & Campos, 1997; Viaene & Abawi, 2000; Lopes et al., 2007), sendo classificado como um dos antagonistas mais promissores no controle biológico desse fitoparasita.
Um caso famoso de desenvolvimento natural de supressividade de solo é o de Heterodera avenae, o nematóide do cisto dos cereais, pelos fungos Pochonia chlamydosporia (sin. Verticillium chlamydoporium) e Nematophthora gymnophila, em cultivo intensivo de aveia na Inglaterra, entre os anos de 1955 e 1968 (Gair et al. 1969). O declinio da população do nematóide Heterodera schachtii em monocultivo constante de beterraba açucareira no período de 1965 a 1982 também foi descrito na Holanda (Heijbroek, 1983). Nesse caso os fungos responsáveis pela supressividade foram Pochonia chlamydosporia e Cylindrocarpon destructans. Westphal e Becker (1999) demonstraram supressividade de solo a H. schachtii em campo na Califórnia.

imagem 1Pochonia chlamydosporia apresenta a vantagem de se desenvolver na superfície das raízes, colonizar as massas de ovos e eliminar de uma só vez vários ovos produzidos por um único nematóide. Em adição ao efeito direto do parasitismo sobre o desenvolvimento embrionário, existe o efeito enzimático sobre a casca do ovo, aumentando sua permeabilidade e facilitando a passagem de possíveis toxinas produzidas pelo fungo no ambiente, pois os juvenis de primeiro estádio (J2) não eclodem quando o fungo está presente. Outros aspectos positivos desse fungo são a capacidade de se desenvolver em matéria orgânica no solo na ausência do nematóide, de produzir grande número de clamidósporos, de colonizar superficialmente e endofiticamente as raízes, de promover o crescimento da planta, de não ser patogênico a seres humanos e outros animais e de ser facilmente produzido in vitro, em grandes quantidades.

imagem 1O efeito de P. chlamydosporia é amplamente conhecido sobre nematóides de cisto e o nematóide das galhas. Wang e colaboradores (2005) observaram a supressão de Rotylenchulus reniformis por P. chlamydosporia em casa de vegetação, o que faz sentido, pois esse nematóide também produz massa de ovos na superfície das raízes. Entretanto, não se conhece os efeitos desse fungo sobre nematódies migradores como Pratylenchus spp., que não produzem massas de ovos. A enzima VCP1, produzida por P. chlamydosporia e V. lecanii, respectivamente parasitas de nematóides e insetos, degrada a camada lipídica dos ovos de Meloidogyne incognita expondo a camada de quitina (Sergers et al., 1994). Essa enzima pode atuar sobre os ovos de outros nematóides e afetá-los negativamente. Por ser um fungo endofítico, Pochonia chlamydosporia pode atuar sobre Pratylenchus da mesma forma como Fusarium oxysporum não patogênico à banana atua sobre R. similis, isto é, produzindo alguma substância tóxica ou induzindo a resistência na planta (Stolf et al., 2006). Entretanto, apesar de promissores, esses resultados são preliminares e servem apenas como sinal do potencial desse fungo sobre nematóides em banana.

imagemO fungo P. chlamydosporia já é comercializado em Cuba com o nome de KlamiC. Em Portugal, a iniciativa privada e a Universidade de Évora fundaram a Clamitec, uma empresa de base biotecnológica que funciona no Laboratório de Micologia Aplicada da universidade desde julho de 2008, e produz esse fungo em fermentação líquida com microfiltração e separação de clamidósporos. No Brasil, mais especificamente em Viçosa, a Rizoflora Biotecnologia S.A. já produz P. chlamydosporia em fermentação bifásica para a validação no campo. Assim que o registro do produto comercial for concedido pelo MAPA, ANVISA e IBAMA, ele poderá ser comercializado e será uma ferramenta importante no manejo integrado de fitonematóides em várias culturas.